No último domingo (26), Jão lançou seu novo álbum, Memórias Póstumas.
Não acompanho muito o cantor, mas ganhei um abraço dele enquanto ouvia a música Literatura.
Nela, Jão escreveu:
Vai ver eu poderia escrever alguma coisa
Que mudaria o rumo cruel dessa história
Pra te ter aqui
Vai ver o tempo pare e gire o mundo ao inverso
E na realidade desses novos versos
Eu te veja aqui.
Eu me considero uma pessoa que tem dificuldade em traduzir os próprios sentimentos, mas como, sem sequer me conhecer, Jão conseguiu transformar em música tudo aquilo que eu sinto?
A forma como me senti compreendida foi estranhamente reconfortante.
E é ainda mais estranho quando essa pessoa que me compreendeu nunca sequer falou comigo.
Meus conhecidos, meus amigos, minha família… não fazem a mínima ideia da tempestade de sentimentos que meu pai ainda me causa.
Em um vídeo recente para o TikTok, também sobre o álbum do Jão, Aimée Espinosa disse que “morrer é ridículo”.
Juntando tudo, há tanto sentido e tanta coerência que, no fim, nada faz sentido.
Morrer é ridículo.
A morte é ridícula.
Este ano completam nove anos que meu pai morreu.
E, sim, há quem diga que eu ainda só escrevo sobre isso.
O que eu posso fazer se estou fazendo exatamente como o Jão canta?
Vai ver eu poderia escrever alguma coisa
Que mudaria o rumo cruel dessa história
Pra te ter aqui.
Eu não tenho uma versão final da minha versão sobre tudo o que aconteceu e tudo o que vivi.
Mas, em todas as que já escrevi, até eu morri.
Meu pai, não.
Deve ser porque ele não vai morrer enquanto eu viver.
Constantemente as pessoas me dizem que eu deveria superar, pensar em outra coisa ou deixar que meu pai descanse em paz.
Mas como?
Se, na história que eu escrevi, ele ainda vive.
Ele ainda conversa comigo.
Ele ainda me vê.
Coisas que quem ainda está neste mundo sequer percebe sobre mim, ele, com certeza, ainda sabe.
Vai ver eu nunca vou superar que ele foi embora sem se despedir - mesmo que eu tenha sonhado com ele minutos após sua morte e já soubesse que ele não estava mais neste mundo.
Vai ver nada do que eu escreva seja realmente bom o suficiente para substituir o que de fato aconteceu.
Ou, vai ver, meu pai consegue ler as besteiras que eu escrevo e dá risada da minha cara, como fazia em vida.
É, pai.
Você vive em mim.
Espero que esteja orgulhoso.
Algum dia vou escrever algo tão bom que vai mudar o rumo da nossa história e fazer com que nós nos encontremos novamente.
Eu faria tudo para te ter aqui. Até criaria um universo onde não tivéssemos que nos separar tão cedo.
E talvez seja isso que me faz continuar escrevendo…
Além de eternizar os nossos momentos, é uma forma de continuar conversando com ele e entendendo sobre mim.
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